domingo, 22 de maio de 2011

PASSAGEIROS NA JORNADA DA VIDA

Estou sentado numa sala de espera do Instituto do Coração em São Paulo, pensando sobre a vida...
Em linhas gerais, tenho minha vida totalmente planejada em detalhes; o que tenho que fazer hoje, meus prazos, o que tenho que fazer amanhã, etc.
Muitas vezes, por motivo de trabalho, meus planos mudam e sou bem flexível nesse ponto, uma vez que meu trabalho é justamente organizar passeios nas folgas das outras pessoas.
Mas, de repente, a vida nos dá um grande solavanco e nos deixa sem chão, mostrando que por mais que tentemos ter controle do nosso presente e futuro, na realidade, não controlamos absolutamente nada!
Começo a questionar o porquê de metas apertadas, trabalho extenuante para atingir objetivos importantes e, até mesmo, a importância destes objetivos; porque a final, todos eles são passos para a conquista da “felicidade”...
Por que trabalhar tanto?
Ganhar dinheiro para “conquistar a felicidade”...
Quem disse que a felicidade pode ser comprada com dinheiro?
O que é a felicidade?
É engraçado como a “felicidade” muda a cada circunstância de nossa vida...
A 20 dias atrás, para mim a felicidade era fechar um grande negócio, receber um grupo grande para algum roteiro de ecoturismo de vários dias na Serra da Bocaina.
Hoje, porém, a felicidade para mim é saúde, vida; é simplesmente o voltar para casa com meu Pai saudável; justamente o que eu já tinha a 20 dias atrás...
A 19 dias atrás, levei meu Pai numa especialista para examinar o sistema respiratório, uma vez que ele sentia-se fraco e dava sinais de uma gripe mal curada. Acabamos descobrindo que ele estava era descompensado, com o coração inchado, acúmulo de líquidos no corpo e o quadro era grave, quadro de internação imediata. Meu Pai já havia sido operado no INCOR, portanto, arrumamos as malas e no dia seguinte, viajamos para São Paulo; era dia 4 de maio.
Meu Pai foi internado imediatamente na Emergência do INCOR e passou a receber uma medicação para combater a descompensação, sendo que seu quadro a cada dia foi ficando mais complicado ao ponto dele ter que ir para a UTI.
Acho que quando ele estava em casa, ele lutava com esse quadro e seu corpo reagia como podia, mas quando se viu dentro do hospital, relaxou um pouco fazendo com que os sintomas realmente ficassem mais evidentes.
Dez dias depois, meu Pai sofreu 3 paradas cardíacas dentro da UTI, sendo que a primeira delas deu muito trabalho à equipe médica para trazê-lo de volta à vida...
Se ele estivesse em São José do Barreiro, certamente não conseguiria sair dessa.
Meu Pai é forte e quer viver, nossa família é muito unida e temos muitos amigos. Tudo isso, aliado à enorme carga de orações de parentes e amigos de várias religiões e é claro, à dedicação, perícia e carinho de toda a equipe do INCOR, mais toda a estrutura e tecnologia que o hospital colocou à sua disposição, fizeram a grande diferença, dando força e energia para que meu pai continue lutando pela vida.
E hoje, cá estou sentado olhando o céu azul de um belíssimo domingo, pela janela da sala de espera do hospital, bem no coração de São Paulo...
Fico imaginando como seria gostoso se nesse mesmo momento, minha família pudesse estar junta e feliz em nossa pousada na Serra da Bocaina; fico imaginando como seria maravilhoso se estivéssemos todos juntos sentados nas redes no gramado em frente ao Recanto da Floresta nesse solzinho da manhã, comendo pinhão e conversando sobre a preciosidade de estar vivo e com saúde...
Para mim hoje, isso é “felicidade”...
Vivemos o nosso hoje, preocupados em “construir o nosso futuro”; empregamos toda a nossa força, vigorosamente trabalhando para que “no futuro” tenhamos qualidade de vida e sejamos “felizes”.
Só que ninguém garante que teremos um futuro!
No processo de construir o futuro ideal, simplesmente podemos morrer e tudo se acaba!
Todo nosso esforço para ser feliz no futuro, com nossa morte, se torna um esforço inútil...
Fico imaginando que tipo de lições podemos tirar nesse momento difícil como o que minha família está passando.
Muitas vezes deixei de andar de bicicleta ou ir numa cachoeira num dia lindo como o de hoje, porque tinha que me dedicar um pouco mais ao trabalho.
E hoje, estou já a quase 20 dias sem nem sequer ter cabeça para trabalhar; passando o dia inteiro sentado na sala de espera do hospital com o coração apertado, rezando, implorando, chorando, meditando, fazendo mantras, para que meu Pai se recupere e consiga sair dessa situação mais uma vez.
Tudo o que a 20 dias era muito importante para mim, simplesmente não é mais tão importante hoje; e o que a 20 dias atrás não tinha prioridade em minha escala de importâncias, se tornou a coisa mais importante do mundo para mim!
Como resolver então essa equação?
Como viver a vida de forma que não passemos a maior parte do tempo sacrificando o hoje em nome de um futuro que talvez nem chegue?
Só tenho pensado nisso nesses 19 dias de São Paulo...
A conclusão que cheguei é que o único jeito, é como Geshe Kelsang Gyatso fala em seus ensinamentos, é controlando o nosso auto-apreço...
Se conseguirmos diminuir um pouco a importância que damos ao nosso “eu”, vamos conseguir viver melhor, sem destruir nossa saúde na eterna luta pela conquista do “melhor”; apenas dessa forma, vamos conseguir relaxar um pouco e descobrir que a felicidade está na simplicidade das coisas, que felicidade é um sentimento e que para desenvolvermos esse “sentimento de felicidade”, precisamos nos encher de “sentimentos bons”, não somente de coisas materiais boas.
Para a conquista das coisas materiais boas, na maioria das vezes, sacrificamos todo o nosso presente e com ele nossa saúde, muitas vezes nos levando à doença ou morte; enquanto que, para conquistarmos “sentimentos bons”, temos que aprender a viver o “aqui e agora”, descobrindo “sentimentos bons” na simplicidade das coisas; descobrindo que o nosso “aqui e agora” nos proporciona milhares de oportunidades para desenvolvermos muitos “sentimentos bons” e que se estivermos atentos, podemos aproveitar todas essas oportunidades para acumular muitos “sentimentos bons” e, desta forma, construir aos poucos a nossa felicidade.
No caminho do INCOR outro dia, encontrei um mendigo pedindo dinheiro para comer, olhei nos olhos dele e dei uma nota de 2 reais; ele sorriu e disse em tom muito profundo: “Que Deus abençoe você”.
Eu quase chorei de emoção porque o que ele me deu em troca foi muito mais do que eu dei a ele...
O sorriso dele e sua benção me encheram de “sentimentos bons” por todo o dia!
Fico imaginando se eu estivesse preocupado com algum trabalho ou reunião importante; talvez nem tivesse notado aquele senhor sentado na calçada.
Numa das tardes visitando meu Pai, aguardava o elevador que chegou lotado, tinha espaço somente para uma pessoa, mas vi uma senhorinha chegando, sai para o lado e dei a vaga para ela. Ela passou por mim sem dizer nada, apenas me olhou nos olhos; mas seu olhar foi tão cheio de bondade e agradecimento, que subi as escadas até o quarto andar sem nem sequer perceber a subida.
Todas as tardes visitando meu Pai, o encontrava dormindo, fazia alguns mantras para ele e tocava de leve sua perna; ele abria os olhos e quando me via, seus olhos brilhavam de satisfação por me ver... Meu coração transbordava de sentimentos bons...
Ás vezes nas visitas me era permitido levar uma caixinha de água de coco que meu Pai adora; quando eu tirava da sacola a caixinha de suco, ele esticava as mãos com uma satisfação tão grande, que era impossível eu não abrir um sorriso de alegria.
Perto da cama de meu Pai, tinha uma menininha toda cheia de aparelhos ligados nela; de vez em quando ela olhava para mim e eu dava uma piscadinha; ela me retribuía com um sorriso tão lindo, que fazia meu coração dar voltas de felicidade...
A conclusão que chego é que, devemos sim trabalhar e conquistar os bens materiais que desejamos, conquistar conforto e uma vida melhor; mas temos que dosar nossos esforços, pois bens materiais sozinhos não trazem felicidade, porque felicidade é um sentimento simples e puro, que vem das coisas simples e puras que nosso “aqui e agora” nos proporciona.
Não é por acaso que nosso “aqui e agora” se chama presente...
Mas temos que estar com o coração aberto para percebermos os “presentes de nosso presente” e nos manter fora dos extremos que tira nossa harmonia e paz. Nem nos tornando escravos de nossas próprias ousadas metas e objetivos, nem “chutando o balde” e nos desligando de tudo; mas buscando um equilíbrio, onde nosso trabalho nos proporcione qualidade de vida sem nos estressar ao ponto de não mais percebermos as grandes oportunidades de nosso dia-a-dia para acumularmos “sentimentos bons”, que combinados com nossa qualidade de vida, simples porém com harmonia, vão nos proporcionar a tão almejada felicidade, não no futuro, mas agora, no momento que estamos vivendo hoje, fazendo com que o nosso “aqui e agora” se torne de fato um grande “presente” a ser desfrutado de forma feliz e duradoura.
Enquanto escrevia, conheci o Paulo, um jornalista de 48 anos de idade, bem sucedido profissionalmente, que se recupera de um infarto muito forte, salvo por um médico de plantão num posto de saúde e pela equipe de profissionais do INCOR. Sua forte fé em Deus e a confiança de sair com saúde o fizeram repensar a maneira de viver a vida; também descobriu que a felicidade está nas coisas simples, como o dia em que conseguiu sentar na privada sem a ajuda de ninguém...
Em suma, devemos no nosso dia-a-dia “estar vivendo no nosso presente”, desenvolvendo nosso trabalho da melhor forma possível, mas sem nos estressar, ficando atentos às oportunidades que a vida nos oferece para acumularmos “sentimentos bons” que nos trarão felicidade imediata sem nos esquecer que o momento de ser feliz é o momento em que estamos vivendo agora, pois independente dos títulos que tenhamos conquistado, somos todos meros “passageiros na jornada da vida” e como nossa vida não tem um “prazo de validade” previamente estabelecido, ninguém pode afirmar que de repente, hoje não seja, o nosso “último dia de viagem”...
José Milton, INCOR, São Paulo, 22 de maio de 2011.

Um comentário:

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